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Após duas tentativas frustradas de receber a vacina contra o novo coronavírus em Belém (PA), o caminhoneiro Jonatas Soares dos Santos, 59 anos, teve de retornar às estradas para cumprir suas funções na transportadora em que trabalha, em Ananindeua, a 26 quilômetros da capital.

Por ser hipertenso, Jonatas pertence ao grupo prioritário das pessoas com comorbidade no Plano Nacional de Vacinação Contra a Covid-19. Essa parcela da população começou a ser imunizada em Belém no dia 3 de maio, com foco nas pessoas com mais de 50 anos.

Seguindo um calendário que considera ao mesmo tempo idade e agravantes de vulnerabilidade à doença, a Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma) vacinou em 5 de maio as pessoas com comorbidade e 59 anos.

Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) diz que os quase 1,3 milhões de caminhoneiros seguem sem projeção de data para receber vacinas (Foto: Reuters/Amanda Perobelli)

 

Era o caso do caminhoneiro que, no entanto, estava a caminho de São Paulo neste dia para um frete. Em 16 de maio, ele tentou ser imunizado no ginásio Mangueirinho, na capital paraense, mas foi mandado para casa por não pertencer ao intervalo de idade definido para a data. Ainda foi em vão ao posto de vacinação mais uma vez na última sexta-feira (21/5).

Apenas 19 dias depois do determinado pelo cronograma municipal, na segunda-feira (24/5), quando a Sesma fez uma segunda chamada para as pessoas com comorbidade com sua faixa etária, Jonatas finalmente recebeu a primeira dose do imunizante da Pfizer.

Só que o alívio veio em meio a outro desencontro. "Não sei se vou estar em Belém na data agendada para o retorno. Devo estar na estrada", contou ele à Revista Globo Rural.

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No intervalo em que procurou e não conseguiu ser vacinado, o motorista viu pessoas mais jovens serem imunizadas em Belém. “E, por ser caminhoneiro, ele está em uma situação de risco ainda maior, já que continua se expondo”, observa a filha de Jonatas, Jéssica Fernanda Oliveira dos Santos.

"Estipulamos várias chamadas para todos esses grupos, exatamente, para contemplar os retardatários, ou seja, pessoas que por algum motivo perderam a primeira ou a segunda dose do imunizante", esclareceu a Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma).

Uma alternativa seria aproveitar as viagens a trabalho para receber a vacina em outras cidades. Mas muitos municípios têm exigido comprovante de residência para imunizar quem deseja, alegando priorizar seus moradores, como é o caso de Belém.

Caminhoneiro Jonatas Soares dos Santos junto ao seu caminhão em pátio de posto de gasolina (Foto: Arquivo pessoal/Jonatas Soares dos Santos)

 

Jonatas diz ter suposto que a exigência se estendia a todos os municípios. "Por isso, não tentei me vacinar quando estava na estrada", explica. Para a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), o impasse poderia ser resolvido com a vacinação em locais estratégicos, como os postos fiscais, paragem comum dos caminhoneiros.

Como a Revista Globo Rural já mostrou, os caminhoneiros são, entre os profissionais com carteira assinada, a ocupação com mais desligamentos por morte desde março de 2020, quando começou a pandemia do novo coronavírus.

Com a atualização da última quarta-feira (26/5), o diagnóstico se mantém, e, em abril, 753 caminhoneiros tiveram seus vínculos encerrados por falecimento – mais do que qualquer outra categoria, embora não seja possível associar as mortes diretamente à Covid-19.

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Quanto à expectativa de imunização, a CNTA informa que os quase 1,3 milhões de caminhoneiros seguem sem uma projeção de data para receber as vacinas.

Assim como outras categorias consideradas essenciais, eles encaram um nível maior de vulnerabilidade, uma vez que continuam a trabalhar presencialmente apesar do risco de contágio, explicou o coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, Domingos Alves.

De acordo com essa perspectiva, o Ministério da Saúde incluiu em janeiro a categoria na lista do grupo de prioridades para o recebimento das vacinas contra Covid-19 no país.

Contatada por Globo Rural, a pasta declarou que cada Estado ou município segue calendário individual, apesar de ter a responsabilidade de seguir a ordem prioritária prevista no Plano Nacional de Vacinação Contra a Covid-19. 

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Na lista de prioridades do Plano, a categoria está na 27ª entre 29 posições. A maior parte dos Estados já começou a vacinar as quase 18 milhões de pessoas com comorbidade no Brasil, o 14º grupo prioritário. Faltam outros 13 recortes populacionais — ou cerca de 14 milhões de imunizações — até a vez dos transportadores chegar.

Levantamento publicado em 18 de maio pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mostra que o recorte tem razão de ser, já que entre as atividades de atenção à saúde humana celetistas, o número de desligamentos por mortes aumentou em 76%. Para os médicos, chegou a triplicar (204% de incremento).

No setor Transporte, Armazenagem e Correio, a variação alcançou os 95,1%. Dentro da ocupação “motorista de caminhão (rotas regionais e internacionais)”, chega a 125%.

O próprio Jonatas Soares dos Santos recorda que contraiu Covid-19 em maio do ano passado, mas, segundo ele, "teve sorte de sobreviver”. À época, ele morava em Petrolina, no Pernambuco, e pôde passar uma semana em casa até se recuperar.

O caminhoneiro lamenta, no entanto, o falecimento dos colegas de profissão. “Encontrei um amigo da antiga no posto fical e paramos para contar e lembrar de quem a gente tinha perdido. Deu um aperto no peito”, desabafa.

Projeto de lei

Reconhecendo a urgência de imunizar os caminhoneiros, a Câmara dos Deputados aprovou no fim de março o texto-base do projeto de lei 1011/20, que estabelece prioridade para 16 grupos dentro do plano de vacinação contra a Covid-19, incluindo os transportadores.

Mas, para a proposta entrar ir ao Senado, ainda é preciso analisar os destaques, conta o autor da proposta, deputado Vicentinho Júnior (PL-TO). "Houve países em que faltou alimento nas prateleiras de supermercados e faltou medicamento nas farmácias. E, eu entendo que, se faltou, foi por não ser produzido ou não ser transportado”, argumenta o parlamentar.

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A relatora do projeto, deputada Celina Leão (PP-DF), incluiu outras categorias no texto como assistentes sociais, profissionais do serviço funerário ou que trabalham em farmácias, oficiais de Justiça, taxistas e mototaxistas e os servidores de limpeza pública. Outros destaques propõem a inclusão de mais categorias, como trabalhadores domésticos.

O assessor-executivo da CNTA, Marlon Maues, reconhece o avanço conquistado com a aprovação do texto-base, embora avalie que as proteções aos caminhoneiros ainda estejam aquém do necessário. “Tem muita gente a ser imunizada antes do caminhoneiro, que está sendo contaminado pelo coronavírus durante o expediente de trabalho e, além disso, não conta com a infraestrutura necessária para sua segurança”, afirma.

Para ele, os governos deveriam providenciar centros de acolhimento para os profissionais do transporte, que garantam alimento, condições sanitárias e segurança. “Um profissional essencial não pode ficar isolado na própria boleia a milhares de quilômetros de casa”, diz.
Source: Rural

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