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Fazendas ficam a mais de 1.300 metros de altitude. (Foto: Niels Andreas/Ed.Globo)

 

Maior produtor e exportador de café do mundo, o Brasil vem ganhando destaque no cenário internacional não só pela sua capacidade de abastecer o mercado com quantidade, mas também de atender a consumidores estrangeiros exigentes, que buscam produtos diferenciados, de altíssima qualidade.

Globo Rural foi ao Sul de Minas Gerais para conhecer quatro fazendas que cultivam o Café Orfeu, o café brasileiro mais premiado do mundo.  Vencedores de concursos no exterior desde 2006, os grãos são cultivados e tratados de forma artesanal, quando ainda estão no campo. O objetivo é extrair as melhores características de cada planta.

Funcionário cata grãos maduros (Foto: Niels Andreas/Ed.Globo)

 

Na época de colheita, por exemplo, realizada entre maio e agosto, cada fruto é avaliado e catado manualmente. Somente aqueles em ponto de maturação ideal são extraídos da planta, enquanto os verdes permanecem amadurecendo nos ramos. Cerca de 180 pessoas fazem o trabalho nas linhas de plantações. A secagem é feita no terreiro e depois de prontos os frutos vão para a fase de beneficiamento, quando são removidas as cascas e feita a classificação por tamanho, peso e cor.

Estando na umidade ideal, cerca de 11,5%, os grãos podem ir para a tulha – locais de armazenamento seco e escuro – e dali, ensacados e preparados nas embalagens para serem despachados. As lavouras ocupam hoje 1 mil hectares plantados de um total de 3.600 hectares. Juntas, as fazendas somam capacidade instalada de produção de 40 mil sacas, incluindo torrefação, moagem e embalagem para consumo final, em cápsulas e sachês. “Cerca de 25% do total de café especial do mundo é produzido aqui nas fazendas”, afirma o gerente Thomaz Monteiro.

A natureza oferece condições geográficas muito favoráveis. Próximo aos municípios de Botelhos e Poços de Caldas, onde as fazendas estão localizadas, a altitude é superior a 1.300 metros. Além disso, o terreno é rico em minerais e o clima também colabora e muito para a produção de grãos nobres. “A altitude e o solo cheio de pedras produzem cafés superiores e raros, comercializados como edições especiais. Geram uma grande variedade de notas aromáticas, exóticas, complexas, que conseguem uma pontuação muito alta na avaliação de qualidade”, explica o agrônomo e diretor das fazendas José Renato Gonçalves Dias.

Grãos torrados são selecionados manualmente. (Foto: Niels Andreas/Ed.Globo)

 

Assim, sempre que na análise técnica uma parte dos grãos se destaca, superando as expectativas, ela é separada e forma um microlote de café. São subdivisões que surgem na safra – todos são grãos arábica e variam, alguns são mais encorpados, outros mais doces, amarelos ou vermelhos. Nós classificamos e guardamos em separado para fazer uma tiragem especial”, observa o agrônomo José Renato Dias. “Geralmente a maioria dos cafés nas fazendas é enviada para as cooperativas sem nenhuma análise e muitas vezes o produtor pode ter um diamante nas mãos, sem saber”, diz.

Um dos microlotes mais recentes e premiados da empresa teve origem em sua linha orgânica, comercializado no início do ano. “Esse café quebra diversos paradigmas e é resultado de muito investimento e inovação, pois é incomum um café orgânico conquistar tantos prêmios em concursos de qualidade. Foram muitos anos dedicados à pesquisa de variedades mais resistentes, estudo do comportamento dos cafezais em cultivo orgânico e busca pela mais alta qualidade em sabor e aroma”, diz Amanda Capucho, diretora executiva da empresa.

Destino: Brasil

Café em grão fica exposto ao Sol em terreiro para secagem. (Foto: Niels Andreas/Ed.Globo)

 

 

Pela primeira vez, todo o produto extraído das lavouras será direcionado ao mercado brasileiro. Tradicionalmente, a exportação sempre foi o destino do maior volume de café produzido no país, principalmente o de qualidade superior, do tipo arábica. “Foi uma conquista importante gerar demanda no mercado interno para a nossa produção de grãos especiais. Esta era uma missão nossa”, diz a diretora executiva da marca, Amanda Capucho.

Sala de prova de cafés (Foto: Niels Andreas/Ed.Globo)

 

O nicho de cafés especiais participa com 3% aproximadamente do total do mercado nacional e tem crescido à média de dois pontos percentuais ao ano, exigindo investimento dos fabricantes para ganhar mais espaço, segundo a ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café).

“Nós temos um papel na educação do consumidor e na disseminação do café especial para que ele seja democratizado, compreendido e valorizado. Havia uma demanda enorme por café de qualidade no país e nos últimos anos o brasileiro vem educando o paladar”, afirma Capucho.

Depois de séculos como grande produtor, tendo o café como sua bebida mais tradicional, somente agora o Brasil ensaia mudanças na maneira de seu consumo. A presença do café na vida dos brasileiros foi medida recentemente produto consumido em cerca de 98% das residências do país, segundo pesquisa da Jacobs Douwe Egberts (JDE), empresa detentora das marcas Pilão e L'or em parceria com Aocubo Pesquisa. Historicamente, o grão conilon, ou robusta, espécie rústica e de sabor amargo, de cultivo mais resistente e de menor custo, sempre teve presença dominante nas mesas brasileiras. Há alguns anos, porém as variedades do grão arábica começaram a ganhar espaço crescente com seus aromas e sabores suaves e complexos e condições de cultivo mais exigentes.

Uma obra de Niemeyer
Em meio ao verde da paisagem montanhosa que predomina na região, uma capela erguida na Fazenda Rainha, em São Sebastião da Gama, na fronteira com São Paulo, chama a atenção. Os traços da Capela Santa Clara são inconfundíveis, pois foram feitos por ninguém menos que o mais famoso arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer (1907-2012). 

Capela tem traços inconfundíveis de Oscar Niemeyer. (Foto: Niels Andreas/Ed.Globo)

 

Segundo os funcionários, a construção foi encomendada a partir de um questionamento do proprietário, o empresário Roberto Irineu Marinho, presidente do Conselho de Administração do Grupo Globo,  aos empregados sobre o que ainda faltava a eles para viverem bem ali.  A resposta, surpreendente para alguns, foi a de que faltava um local onde pudessem rezar e se reunir semanalmente.

A partir daí, o pedido dos lavradores pela igrejinha “chegou aos ouvidos” de Oscar Niemeyer, que já contava com 100 anos de idade. Algum tempo depois, o projeto foi concebido e entregue ao proprietário da fazenda, sob a condição de que a obra deveria ser realizada o quanto antes. Assim foi feito e, por fotos, Niemeyer pôde ver seu trabalho erguido, inaugurado e em uso pelos funcionários.

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Source: Rural

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