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Campo experimental de onde foram coletadas as amostras de Amaranthus palmeri para testes de resistência a herbicidas (Foto: Dallas Peterson/KSU)

 

Pesquisadores da área de plantas daninhas da Kansas State University (KSU), nos Estados Unidos, afirmam que o Amaranthus palmeri desenvolveu resistência aos herbicidas Dicamba e 2-4D. Formulações desses dois princípios ativos são comercializados por grandes empresas de sementes e químicos, como Basf, Bayer e Corteva (divisão agrícola da DowDupont).

“É o primeiro caso confirmado de resistência ao Dicamba e ao 2-4D no Amaranths palmeri, aumentando ainda mais o desafio do controle dessa planta nos sistemas produtivos”, diz o comunicado, divulgado pela universidade no dia 1º de março.

No relato, os pesquisadores explicam que a planta já tinha desenvolvido resistência a diversos tipos de herbicidas, deixando os agricultores com menos opções de controle de daninhas na fase de pós-emergência. Acrescentam que Dicamba e 2-4D vinham sendo usados regularmente há alguns anos, mas vinha sendo verificada menor eficiência.

Para realizar o estudo, os cientistas tiraram as plantas de uma lavoura experimental pertencente à universidade, utilizada há mais de 40 anos e destinada a testar e comparar sistemas produtivos, rotações de culturas e diversos preparos de solo. Foi em talhões de sorgo semeados no plantio direto que o controle do Amaranthus palmeri revelou-se mais difícil.

“Foi cada vez mais difícil controlar a planta nas parcelas de sorgo. A ineficácia no controle nos levou a suspeitar de que a resistência poderia ter sido selecionada nessas plantas”, explica Peterson, em entrevista por e-mail à Globo Rural.

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A experiência para atestar a resistência utilizou uma amostra de plantas que sobreviveram às aplicações recomendadas dos herbicidas. Essas plantas foram levadas para uma estufa no Departamento de Agronomia da Universidade, onde puderam produzir as sementes que resultariam no material a ser utilizado.

Com o 2-4D, foi feita uma única aplicação de várias doses diferentes, quando as plantas estavam com altura entre 10 e 12 centímetros, um experimento chamado de dose-resposta. O material tratado foi comparado com outra população de Amaranthus palmeri suscetível ao tratamento químico, com a intenção de observar a extensão dos danos e o nível de biomassa da planta.

Peterson explica que os sinais da ação do herbicida começaram a aparecer depois de 21 dias da aplicação. Segundo ele, a amostra indicou uma resistência entre 8 e 10 vezes maior que suscetível. Significa que a planta resistente pode tolerar um dose entre oito e dez vezes maior do herbicida.

No caso do dicamba, os testes com uma progênie das mesmas sementes foram realizados apenas com a dose recomendada do herbicida. O resultado apareceu também 21 depois do tratamento. As plantas suscetíveis foram totalmente controladas, de acordo com o comunicado. Nas resistentes, o resultado foi uma "alta taxa de sobrevivência", de 81%.

"Atualmente, estamos conduzindo os experimentos de dose-resposta para determinar o nível de resistência ao dicamba nessa população", pontua Peterson.

Processo natural

 

O Amaranthus palmeri é uma espécie de caruru e considerada uma das plantas daninhas mais ameaçadoras à agricultura. Estudos indicam que ela é natural de solos áridos nos Estados Unidos e do México. Atualmente, pode ser encontrada em vários estados americanos, principalmente nas áreas Centro-sul e Sul.

Dallas Peterson pontua que a Sociedade Americana de Ciência de Plantas Daninhas (WSSA, na sigla em inglês) classifica a planta como a maior problemática dos Estados Unidos. Os danos vão desde perdas de produtividade até inviabilização da colheita. Na cultura do sorgo, as perdas são de cerca de 50%. No algodão, chega a 59%; na soja, a 79%; e no milho a 90%.

Ele lembra que o desenvolvimento da resistência é um processo natural, que ocorre em função da variabilidade genética existente no ambiente. Mas o manejo no campo também influi nesse processo, criando o que os cientistas chamam de pressão de seleção. Os herbicidas, por exemplo, eliminam as plantas mais suscetíveis. As mais, resistentes, que sobrevivem, vão se reproduzindo, aumentando sua população.

A ineficácia no controle nos levou a suspeitar de que a resistência poderia ter sido selecionada nessas plantas" (Dallas Peterson, pesquisador da KSU)

Em espécies que formam grandes populações, a chance de desenvolvimento da resistência é ainda maior, acrescenta o pesquisador. Essa é justamente uma das principais características da Amaranthus palmeri. Ela é uma planta dioica, com masculino e feminino em indivíduos diferentes, sendo necessário o cruzamento. E chega a superar 600 mil sementes por planta.

“É, de fato, uma planta agressiva. Uma planta de folhas largas com alta taxa de crescimento quem, se não for pulverizada em estágios iniciais, há chances elevadas dos herbicidas falharem no controle”, explica Peterson.

O pesquisador destaca que os produtos químicos ainda são o principal meio de controle de plantas daninhas na agricultura. Utilizando como exemplo a situação dos Estados Unidos, ele lembra, no entanto, que o aumento da resistência do Amaranthus palmeri a diversas classes de químicos tem deixado poucas opções para o seu controle em boa parte dos sistemas produtivos.

“Novos casos de resistência alertam para a urgência em diversificar práticas de manejo. As daninhas podem desenvolver resistência não só aos herbicidas, mas também a outras práticas. A mensagem ao produtor é observe sua fazenda, conheça suas plantas daninhas, pratique rotação de culturas e de mecanismos de ação herbicida. O melhor é agir enquanto as plantas estão ainda pequenas, ou até mesmo evitar a emergência”, diz Peterson.

Um dos autores do estudo é o pesquisador brasileiro Ednaldo Borgato, agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) com especialização em plantas daninhas pela própria USP. Atualmente, ele cursa o doutorado nessa área na KSU, onde pesquisa aspectos da biologia e ecologia do Amarantus palmeri.

Comparando a planta com outras consideradas perigosas para as lavouras, como buva e capim amargoso, o pesquisador reforça que são espécies diferentes, cuja prática de controle da infestação nas lavouras deve ser considerada de forma individual. Ele destaca, no entanto, que o Amaranthus é uma planta bastante agressiva, que merece bastante atenção.

“O Amaranthus palmeri é planta daninha de ciclo anual, com emergência durante o verão. O capim amargoso é perene com fluxos de emergência durante o verão e a buva é anual de inverno. Mas o palmeri é muito agressivo e é comum ser observado como espécie de daninha predominante nas áreas em que está presente”, alerta o pesquisador, também via e-mail.

Diversificar estratégias

Procurada por Globo Rural, a Bayer informou ter tomado ciência dos resultados da pesquisa e que entrou em contato com a KSU para entender melhor os estudos. Em comunicado, a empresa destacou a necessidade do agricultor adotar um programa integrado de manejo de plantas daninhas, com abordagens variadas.

“Os agricultores devem ter em mente a importância de diversificar suas estratégias de manejo de plantas daninhas, incluindo por exemplo, práticas agrícolas como rotação de culturas, bem como herbicidas que controlam as plantas daninhas de formas diferentes”, diz a nota enviada pela assessoria.

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Também em nota, a Corteva destaca que o 2-4D permanece como uma ferramenta importante no controle de plantas daninhas de folhas largas, sendo usado em cerca de cem países. E que o produto tem larga eficácia, especialmente em populações de plantas resistentes a outros herbicidas.

A empresa informa ainda que também tomou conhecimento dos resultados do estudo feito pelos pesquisadores da KSU. E avalia que o trabalho reforça a importância da rotação de culturas e de controle de plantas daninhas com produtos de múltiplos modos de ação.

“O problema foi detectado em uma lavoura experimental, onde não se realizou rotação de cultura continuamente por 45 anos. Vale destacar ainda que neste local não se adotavam boas práticas agrícolas, que são fundamentais para evitar o aparecimento de plantas resistentes”, afirma a companhia.

A Basf não se manifestou até a conclusão desta reportagem.

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Source: Rural

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